segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Farewell/ Mudança de endereço do Tons e Toadas

Olá!

Transfiro e concentro a partir de hoje minhas atividades bloggeiras para o meu blog principal, As Pipas.

Isso quer dizer que as resenhas que vinha publicando exclusivamente aqui serão publicadas exclusivamente lá.

Com esse gesto pretendo manter uma página atualizada, com enfoques mais claros e atrativos novos como por exemplo vídeos em que falarei sobre os temas pertinentes à proposta.

Conto com todos os leitores deste blog nesta nova direção.

Abraços!

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

François Muleka em Curitiba



Na minha opinião, você está diante de grande arte quando enxerga um objeto na sua frente que não para de "transcender".

E com não parar de transcender quero dizer: não parar de gerar um sentido que supera a si mesmo. Você num átimo se vê diante de um ente que concentra animação vital de tal forma que se sua razão ou coração tenta acompanhar os caminhos propostos por ele a única possibilidade é perder-se. E então você cala e então, é claro, é isto que é estar diante da beleza.

Imagine que a vida lhe colocasse diante do seguinte desafio, para testar sua força: você perde sua visão e é colocado num país irreal de um outro mundo. Lá você é deixado até se sentir completamente perdido, sem qualquer direção.

O que você sente não é desespero ou dor. Você simplesmente quer ouvir a vida, mas ela está falando outras línguas, deslavando outras músicas e ela não te vê. Você não a culpa, sente que não a pode culpar, pois, lúcido, sabe que ela não o está condenando e sim apenas correndo em infinitas outras direções. E você é um.

 De repente, num instante, a voz de um irmão (ou irmã) passa a te dar inúmeras coordenadas. Esta voz não está fazendo questão de te amar, mas te lembra do amor.. Esta voz é mais a voz da simplicidade do que a da razão. Esta voz traz tanta razão que se torna impressão: abertura de caminho. Ela diz: vá. Esta voz constrói por prazer inúmeras pontes e é a voz da arte.

Assim foi o som apresentado por François Muleka, Trovão Rocha e Fernando Lobo ontem, aqui em Curitiba no bar 351 (situado na Trajano Reis).

Girando em torno das músicas do primeiro, estes três moleques fizeram uma tal demonstração do que é arte que eu me senti como na época em que alimentar a expectativa de encontrar tesouros em forma de bandas (geralmente de rock) era um dos maiores e mais elevados hobbys à disposição. E de vez em quando acontecia. Aconteceu.

François é a grande revelação como compositor de música brasileira na cidade de Florianópolis. Entenda o que o casamento de suas melodias e seu ritmo, seu conceito próprio, está fazendo em qualquer uma de suas músicas e descubra você mesmo o espanto que este músico tem gerado. Trata-se, com toda certeza, de uma pessoa que está primordialmente, nas suas primeiras aspirações, interessada em fazer música e não outra coisa. Trata-se de um artista-músico e não há maneira possível de desmentir isto.E ele está brilhando e sabe pra onde vai.

Acompanhavam-no o baixista e maior parceiro musical Trovão Rocha (um virtuose que a todo tempo está fazendo arte e não firula e que sempre impressiona pela maturidade) e o baterista Fernando Lobo. Este músico, por sua vez, (bastante conhecido na cena por tocar com o grande Molungo, trabalho solo e vários outros projetos) impressiona pela irmanação ao som de François e Trovão.Além de excelente instrumentista, Fernando (que salvo engano meu tocou pela 2ª vez com seus colegas) entendeu por dentro o que esta música pede. Sua sagacidade no instrumento mostra que estamos diante de outro artista de grande espírito.

Que François volte mais vezes à Curitiba, pois certamente ele tem tudo a ver com aqui.

Entendedores se espantarão.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Serginho do Trombone



08/10/2013 - por ocasião do Curitiba Jazz Meeting. Uma crônica mais afetiva do que crítica, mas que diz algo sobre o trabalho de um músico.


Já estamos na terça, mas não posso deixar de agradecer e homenagear um amigo meu que é grande músico e quebrou tudo no Guairão, principal teatro aqui de Curitiba, neste domingo.

O evento era o Curitiba Jazz Meeting, um curto festival de jazz que envolve boa parte dos maiores músicos do estilo residentes na cidade, mais atrações especiais, muitas delas gringas e com um currículo de dar inveja.

O show desse domingo foi com o músico e produtor Bob Belden, norte-americano a quem Duke Ellington se referiu como "além de qualquer categoria" por sua incrível versatilidade.

O som estava incrível. Uma orquestra formada por instrumentos eruditos e populares executava as composições de Belden, um material bastante sofisticado e cool.

E, pela segunda vez, meu grande amigo Sérgio Coelho, vulgo Serginho do Trombone, ou ainda, Serguei da Trombeta, foi o primeiro músico a improvisar depois do convidado principal e o mais frequente improvisador ao longo da noite.

Ano passado, num show realizado no Guairinha para o mesmo festival, seu primeiro improviso foi atravessado por palmas, gritos e assobios eufóricos, coisa que, nesse nível, só tinha visto em shows do Alejandro Sanz. Eu, que já estava agoniado nas primeiras frases daquele improviso, me emocionei muito.

E dessa vez não foi diferente. Como o trombone é um instrumento que até certo ponto limita o excesso de acrobacias nas frases tocadas pelo músico, o que sobra no caso de um grande instrumentista é procurar a beleza e a musicalidade por elas mesmas.

Pra quem nunca ouviu esse figura tocar, saibam que o Serginho pode estar tranquilamente entre os 3 grandes trombonistas brasileiros da atualidade. Toca com Hermeto Pacoal, Vinícius Dorin, Arismar do Espírito Santo e um ou outro pessoalzinho assim mais ou menos desse naipe.

As frases do Serginho cintilam e expõem a música pela música, pura e simples. "Contam uma história" como uma vez disse pra ele, ao que ele completou: "É, sempre temos que contar uma história."

Fica aqui minha homenagem e meu agradecimento pelo ingresso dado pelo meu amigo e a recomendação de que prestemos de vez em quando atenção nestes heróis da música, os instrumentistas. São heróis que vivem para o estudo e aperfeiçoamento do seu instrumento, pensando muito à frente do estrelato, e que acabam fatalmente se tornando verdadeiros promovedores da luta por uma sensibilidade diferente, mais aguçada e capaz de generosidade e doação. Suas obras são pacientemente construídas e é evidente que não se espera muita coisa em troca (grande dinheiro muito menos) a não ser continuar tocando.

E bebericando...

Isso sim é estar vivo e salvo.

Saúde Serjão!!!

Despeço-me com sua frase:

"O medo de não ser puro é o que traz impurezas."

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Pensata #2

Da relação do teatro com a liberdade

Se eu pudesse ser o outro, libertar-me de ser só eu mesmo, todos os objetos que eu tomo deixando de se referir a mim, sendo incorporados pelos minutos. Se eu pudesse tomar os objetos pelo prazer do deslocamento e da construção. Entrarei em contato com a criação da vida: tomarei este livro para ser outro; serei o funcionário ultra-disposto, atuando, vendo os personagens girando, libertando; irei para o bar desconhecido onde saciarei desejos desconhecidos; darei um outro rosto a mim mesmo, onde me verei. Então entenderei o que é ser Vida em outra Vida. Não serei eu que morrerá: será um outro. Eu mesmo continuarei.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Pensata #1

Se um quadro com uma bola disforme no centro em uma composição com pouquíssimos elementos é uma obra de arte pertencente a um autor universalmente respeitado, se se vê ali um estilo, completo em si, único, uma afirmação artística arrebatadora, por que, ao se ouvir uma música baseada em 3 acordes, frequentemente músicos inteligentes atentam apenas para a ausência de outros rumos da harmonia?

Em um quadro como esse é como se escolhessem expressar pelo discurso o estarem vendo apenas uma bola perfeitamente redonda, um retângulo azul abaixo, um fundo sujo creme e branco e rabiscos completamente aleatórios nas laterais. Nenhuma aceitação da experiência estética, nenhum mundo alusivo, nenhuma loucura bela, nenhuma voz absolutamente particular e nenhum vazio proposital, nenhuma ironia, nenhuma acidez em repetir a tua, a minha, a nossa roda.


Assim é a compreensão de vários músicos acerca da "pobreza musical" de, por exemplo, o rock, a música popular e a pop baseados em poucos acordes e pouco arranjo. 

É como se, grosso modo, não se conformassem que uma comida como o sushi fosse crua. E tentassem nos convencer de que para todos os casos e situações a comida assada fosse a melhor, a mais saudável, a mais asseguradamente digna do adjetivo"inteligente".

Por estarem querendo dizer outra coisa, esquecem completamente do fato de que toda expressão artística é de saída abstrata.Compõem então juízos críticos a partir da alienação ante a esse aspecto mais básico da obra de arte.

(Acima o quadro Sol Vermelho de Miró)




Texto sobre rock publicado no Whiplash

O site Whiplash publicou uma análise da música For your life do Led Zeppelin que gostei muito de escrever.

Segue o link:

http://whiplash.net/materias/biografias/206432-ledzeppelin.html

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Trio Pestana



Não é por não contar com um cantor/frontman que a música instrumental  perde suas possibilidades infinitas e que deixa de privilegiar, entre outros elementos, a diversão, qualquer que seja o ambiente em que se esteja.

O posicionamento dos músicos em relação a que espaço querem ocupar numa apresentação ou que espécie de impressão querem causar é que decide como será partilhada a quota de alegria e acréscimo entre músicos e plateia.

A minha aposta é a de que a espontaneidade e a abertura do Trio Pestana são tão grandes, tão claro é o seu espírito de interação e tão evidente sua musicalidade que você jamais se sentirá entediado em seus shows como acaba acontecendo em alguns casos de música instrumental na noite.

Muito pelo contrário: a diversidade do material escolhido (músicas conhecidas selecionadas de vários gêneros) somada à pegada própria da banda transmitem a sensação de um jogo constante entre músicos e público, como se no próprio som houvesse convite, ironia  e aquela discrição aberta, como em um flerte.

Não estou querendo com estas linhas tirar mérito nenhum das gigs de música instrumental que prezem por seriedade, explosão multi-técnica e concentração na tradição e raízes de algum gênero (o bebop ou a escola Hermeto Pascoal, por exemplo). Mas não esconderei que sou da opinião de que muitas vezes o gênero música instrumental perde com a completa falta de pensamentos realmente abertos em torno do que tem apelo e é informação clara para a plateia.

O Trio Pestana é uma banda formada este ano em Curitiba por 3 jovens amantes de música (Mateus Azevedo, Maurício Escher e Anderson de Lima) e em seu show você ouvirá Take Five (standard de jazz composta por Dave Brubeck), Wicked World (do Black Sabbath),  Milionário (aquela mesmo, famosa na versão dos Incríveis) e Maria Fumaça (Banda Black Rio) tocadas com a mesma naturalidade. Saí do primeiro show que vi com a impressão forte de surpresa refletida na pergunta: “por que mais bandas não pensam assim?”

Existem grandes artistas cuja sacada está em um quase sair de cena fazendo com que, entre outras coisas, seja colocado em cheque aquele sentimento, bastante comum na classe artística, de dever natural de ocupar espaço ou "quanto mais melhor". Este é evidentemente o caso desta iniciante grande banda chamada Trio Pestana.

O trio tocando Maria Fumaça:

terça-feira, 23 de abril de 2013

Toucinho





Esta terça (16/08) no Frango e Fritas teremos a participação do Toucinho Batera, músico que, pra mim, é o grande maestro da música em Floripa.

Toucinho Batera é a imagem encarnada do artista que todos nós, em nosso sonho mais absurdo, imaginamos ser. É fã dele: Nenê Batera, que é um baterista e artista incrível, talvez o nome da bateria que mais se consagrará entre os bateristas brasileiros de todos os tempos.

É fã dele: eu, um aspirante a escritor, que lido com palavras e que diante do Toucinho não tenho nenhuma.

Se você alguma vez já sentiu a violência do amor, imagine alguém que viva a todo instante, sem parar, por sua história, essa violência. Este é Toucinho Batera.

Um músico que também é um ser humano incrível, personagem de histórias absurdas, simples e milagrosas. Como, por exemplo, juntar madeiras, plásticos e objetos sem uso para redesenhar, da maneira mais inocente, pura, a mágica de suas mulheres. Ou então refazer a peça de mecânica mais sofisticada da bateria, uma máquina de chimbal, com um guarda-chuva e o que estivesse à mão – como realmente aconteceu.

Em tempos em que é difícil enxergar a violência da vida como ela é, por tudo parecer tão violento, temos pertíssimo de nós um sujeito que mergulhou de cabeça na mais pura intensidade da vida: a intensidade de quem, com 61 anos, tem a força, a agilidade e a inteligência de um gurizão de 20 para tocar as músicas mais ricas, difíceis, sensíveis e violentas do nosso tempo, vindas do mais fundo do grito do sofrimento e da dignidade popular.

Compareçam!

terça-feira, 24 de julho de 2012

Workshop - Toicinho Batera e Maurici Ramos

 
 
Dar para Toicinho Batera e Maurici Ramos o título de dois dos maiores músicos da ilha e, pelo menos, do sul do Brasil não é mera retórica. Aquele que talvez seja o maior nome da batera nacional, Nenê, é fã e amigo do Toicinho. Maurici Ramos viajou o mundo inteiro durante 4 décadas como baterista profissional, chegando a tocar em produções da Disney e com a Orquestra Sinfônica de Israel.

Toicinho Batera impressiona a todos os músicos com quem toca por sua incrível habilidade de abordar a bateria como um instrumento capaz de desequilibrar na execução de um som. Em qualquer noite que o virmos tocar, estaremos diante de um músico que trata seu instrumento como parte vital do próprio corpo e espírito, levando as possibilidades da criatividade sempre ao limite. Em suas mãos a bateria ocupa um lugar central dentro da música, não sendo nem um pouco equivocada a impressão de que o Toicinho cumpre, tocando, as vias de um arranjador ao vivo.

Vi Maurici Ramos tocar a primeira vez há pouco mais de um ano em uma noite de jazz aqui no centro de Florianópolis. Fiquei impressionado, pois nunca tinha escutado uma bateria cantar tanto. É como se cada aspecto do instrumento tivesse sido estudado com tanta dedicação e capricho que tudo soasse o mais espontâneo e vivo possível, como se nada fosse técnica e tudo "melodia". Maurici é o raro exemplo de baterista que toca com tal elegância e domínio do instrumento que parece se ouvir, sem esforço, de todas as distâncias no lugar em que toca. Dá prazer ouvir cada som isolado que tira da bateria em favor da música.

Ainda mais do que presenciar o encontro de dois monstros do instrumento, a noite de hoje traz a figura impagável destes dois ilustres senhores que atravessaram a vida fazendo o que mais amam que é arte, a mais genuína, inteligente, sensível e dedicada possível.

domingo, 15 de julho de 2012

Tesouro underground em Floripa: o som e a fúria do Punk Jazz


fotos: Jordane Câmara

Apesar do nome do evento poder suscitar certo espanto, o Punk Jazz nada tem a ver com arte conceitual ou com pretensões a apresentar alguma nova mistura ou experimentação destas que acabam fazendo da arte um ring de estupro do apelativo.

Quem esbarrar na simplicidade dos 4 integrantes da banda, que volta a se apresentar no Blues Velvet esta terça, dia 17 de julho, poderá até duvidar do fato de que sejam artistas.


Após 5 minutos de atenção no som feito por Xandão (baixo), Wslley Risso (guitarra), Victor Bub (bateria) e Giann Thomasi (sax), no entanto, estamos convidados a entrar num universo de incríveis técnica, intensidade e bom gosto sonoros onde acredito ser bem fácil entender o nome do projeto – que faz menção a uma música do grande grupo de jazz-fusion Weather Report.

Aos amantes do underground e das descobertas de tesouros urbanos muito recomendo comparecerem neste bar que, dada sua localização e charme lo-fi, possibilita que o jazz tenha muito mais do que o volume de música ambiente.

Acredito que estamos diante de 4 músicos profissionais e adultos, já maduros esteticamente e sabendo o que querem de si mesmos e do som.

Vale a pena prestar atenção na personalidade dos instrumentos dentro de cada tema para que se sinta a presença destes quatro cidadãos na execução de uma música que em muitos aspectos é criada na nossa frente.
    

Um comentário comum de amigos que simpatizam com o jazz é o da dificuldade que têm em “entender tudo” o que se passa numa execução deste tipo de som.

Compreendo-os muito bem, em parte por sempre sentir o mesmo (e achando que a graça é essa) e em parte por perceber que tal sensação pode ter muito a ver simplesmente com a baixa atenção que os meios tradicionais de comunicação em nosso país dão ao estilo, fazendo com que a formação de uma familiaridade natural que se dá, bem ou mal, com outros tipos de música não seja tão comum em relação a ele.

 
De fato, não é casual a alcunha de “música inteligente” que o jazz tem. O estranho é que batizando-o assim por vezes se esqueça que altos teores de força, irrazão e paixão estão igualmente presentes no mesmo. Afinal, trata-se de um som atravessado essencialmente pelo improviso, o que naturalmente podemos pensar justo como um desafio à inteligência.

A recompensa por adentrar no mundo do jazz é o de adquirir o vício em uma música que de tão sensual e inteligente (pela quantidade de informações e pela exuberância da execução) parece poder entorpecer naturalmente o ouvinte, como o cheiro de uma boa cachaça, o gosto de um bom papo, uma carícia amorosa ou, simplesmente, a certeza da participação no pleno gozo da vida.










sábado, 25 de fevereiro de 2012

Fernando Bailão: paixão pelo jazz em Florianópolis


Amanhã (domingo, dia 26) um dos músicos mais talentosos da nossa cidade estará apresentando composições suas, além de standards de jazz e música brasileira, ao lado do grande saxofonista Maycon de Souza. O evento acontece no Coisas de Maria e João em Santo Antônio de Lisboa às 19:30. O couvert é de 10 reais. Falo do grande guitarrista Fernando Bailão. Anotem esse nome!

De todos os músicos e artistas que conheço em nossa cena ilhéu, Bailão é pra mim, disparado, o mais explosivo – e no melhor sentido possível para a palavra. Como qualquer pessoa que estiver assistindo a uma de suas noites de jazz pode perceber, o envolvimento do guitarrista com cada música (de um tema acelerado a uma balada) nunca deixa de ser intensíssimo, puramente presente e entregue.

Façam o teste: enquanto o observarmos nunca sentiremos a menor desconfiança de que este músico está com a atenção voltada para outro lugar que não seja o esplendor do som e da vida. Você nunca lerá na expressão do Bailão um “o que vou jantar hoje?” e sim, sempre, um “quero tirar mais desse som, mais e mais!”

Lutando pela afirmação da música instrumental em Florianópolis da maneira mais simples e fiel, sempre com suas próprias forças, Fernando Bailão é daqueles artistas que não conseguem deixar de levar a explosão de que falo para cada segundo de seu dia-a-dia. É como se ao invés de se aproximar com respeito passivo e métodos de segurança diante do “amanhã” Bailão fosse daquelas personalidades que desafiassem e exigissem a todo momento o limite desse mesmo amanhã.

Por tudo isso, não é difícil entender a aproximação do Bailão ao jazz como sendo a mais orgânica e mágica possível: somente uma música que devora os segundos como o jazz pode dar conta da ousadia e força de uma vida como esta.

Bailão é um artista completo: não é porque sua atitude artística seja sempre a do desafio que lhe falte em algum momento uma inteligência e uma sensibilidade muitíssimo bem depuradas.

Reitero o convite que faço aqui, pois o som de amanhã traz a oportunidade especial de ouvirmos seu trabalho autoral.

A grande arte não nos cobra esforço de atenção. Ela nos dá, mais do que damos a ela. Brindemos a este grande artista e sem dúvida uma das maiores almas da nossa cidade, meu amigo Fernando Bailão!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Texto sobre a cena de Floripa na revista Naipe

Em meu sexto texto pelo blog Pirão da revista Naipe, tentei descrever um pouco dos novos caminhos da cena de música de Florianópolis.

Na nossa frente

Todo comentário é bem vindo!

terça-feira, 12 de julho de 2011

Sexta apresentação do Watch Out Jazz Quartet (12/07/11)


Terça passada no Frango e Fritas o Watch Out Jazz Quartet teve o maior público desde que começou a tocar. Na chamada de hoje falo um pouco sobre cada um dos 4 músicos que compõem o grupo.

Na guitarra está o paulista Wslley Risso, residente na ilha há dez anos, mesmo tempo que ministra aulas do instrumento e de música em geral e que toca nunca com grandes intervalos na noite da cidade.

Grande parceiro daquele que é muito provavelmente o maior músico de Florianópolis, mestre Toicinho Batera, seu estilo extremamente agressivo, de improvisos sempre arriscados e técnica incrível, remete, por essas características, ao seu grande pai musical, o saxofonista John Coltrane.

Grande admirador da música brasileira, estudou com grandes mestres da guitarra do Brasil como Olmir Stocker e Mozart Mello e exerce com enorme assiduidade também o trabalho de compositor e arranjador.

Na bateria Victor Bub é um manezinho naturalizado, dono de um estilo que combina explícita e incrivelmente sensibilidade e agressividade. Seus próprios trejeitos corporais mostram um constante esforço por interpretar criativamente tudo o que acontece na música.

Grande admirador do estilo do gigante Tony Williams, Victor possui a enorme virtude de saber ouvir “o que a música pede” sem deixar de surpreender pela ousadia, bom gosto e enorme violência de seu som.

Membro da grande banda Trio Butiá (grupo dedicado a composições próprias e da qual também faz parte Wslley) Victor tem se dedicado a trazer grandes nomes da música instrumental para workshops através de sua loja, a Batuka Groove.

Rafael Calegari, natural de Tubarão, é um baixista que faz questão do seu som aparecer, sendo possível quase “groovar” com ele. Como não podia ser diferente para esta banda, sua pegada é também bastante forte, seu timbre soando massudo e orgânico com grande habilidade.

Não é por acidente que o vemos suar bastante durante suas apresentações: este músico talentosíssimo, cujo reconhecimento só tende a crescer a nível nacional, parece pulsar a cada instante, junto com o suingue de um simples blues ou composições voltadas para o modal.

Membro de outro grupo de enorme destaque da ilha, o Quarteto Rio Vermelho, Rafael também se dedica ao trabalho de compositor, ao mesmo tempo que acompanha nomes de destaque do cenário nacional, como recentemente Jorge Vercilo.

No sax temos o manezinho da gema Giann Thomasi. Se os talentos de seus companheiros não forem suficientes para conquistar nossa audiência, que ao menos a verve e a irreverência deste monstruoso instrumentista nos provoque impressões e sorrisos.

Grande admirador dos maiores nomes do sax contemporâneo como Chris Potter e Michael Brecker, Giann não poupa um segundo de fôlego atirando milhares de notas na cara do espectador sem que este tenha tempo para sequer pensar que está diante de um instrumentista “exagerado” ou excessivo.

Antes de formularmos este pensamento, somos obrigados a perceber que os chistes de um comediante estão tão presentes na sua música quanto as tradicionais armas de que se vale um pleno virtuose de um instrumento-símbolo como o sax.

Vale a pena comparecer nesta terça para presenciar este encontro de seres humanos simples que se entregam inteiramente a um momento em que toda esta análise pode ser recusada, deixada de lado, em nome do amor ao risco e improviso, percorrendo todas as hipóteses do som.

Apareçam!

Forte abraço,

Diogo

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Versos da canção brasileira


para Denise de Castro e os novos músicos de Floripa
Alguns versos que gosto na poesia da canção brasileira:

Os versos: “Água de beber/ bica no quintal/ Sede de viver tudo” da música Fazenda, do Milton. Por dizerem tudo e do jeito mais sensorial e simples. Coisas que o Milton faz acontecer, como também em Os povos: “Casa iluminada/ Portão de ferro/ Cadeado /Coração.”

Gosto da simples presença da palavra foguete, em O último desejo, canção do Noel, soando no verso: “Morre hoje sem foguete.”

O verso que mais gosto do Chico Buarque é “Que a dor é tão velha/ que pode morrer”de Olê, olá (canção cujo título também é meu preferido).
Do Caetano gosto do modo como ele diz “Eu sou um leão de fogo.” (Em Terra.) Gosto da força absolutamente despojada que move os versos que abrem Tempo de estio: “Quero comer/ Quero mamar/ Quero preguiça.” (Imaginem um deus que dissesse estes versos.)

Gosto de imaginar o dia em que alguém me dirá, sem cantar, o seguinte verso de Lua, lua, lua do jeito como ele deve ser dito, como uma verdade essencial das coisas, da vida, emitida com um impulso absolutamente desprendido e apaixonado: “Meu canto não tem nada a ver com a lua.”
Gosto de imaginar o dia em que a sua Um índio será vista como a profecia escandalosa e concreta que é.
Acho a letra de Estrada do sol, feita por Dolores Duran, absolutamente linda. Estanco com espanto em cada uma de suas palavras: “É de manhã/ Vem o sol/ Mas os pingos da chuva/ Que ontem caiu.” A letra inteira parece a um só tempo simples e totalmente improvável, como se velasse um enigma puro, um jeito leve de morrer. (A versão do Milton é uma das coisas mais maravilhosas feitas nesse planeta.)

Gosto de música pop. Inexplicavelmente gosto quando o Lulu Santos canta, simplesmente: “Quando um certo alguém/ Cruzou o seu caminho.” Gosto quando Falcão do Rappa (pra mim a grande banda brasileira dos últimos 20 anos) canta: “Faça um filho comigo.” Gosto das letras da Ângela Rô Rô, pois o jeito como ela as canta, tornam-nas todas poesia pura: ela parece sugerir que a verdadeira força do poeta é fazer com que as coisas que diz, quaisquer que sejam, é que sejam belas. O poeta torna belo por dizer. Acho lindíssimo o momento em que a Marisa Monte canta “Me abraça devagar/ Me beija e me faz/ Esquecer.”

Também não sei explicar porque gosto dos versos que abrem o samba Se você jurar: “Se você jurar/ que me tem amor/ Eu/ Posso me regenerar.” (Separar estes versos pela maneira como são cantados tem um gosto incrivelmente especial... E inexplicável.)

Dos Afro-sambas de Vinícius e Baden destaco o coro de Bocoché: “Vou me casar/ Com meu lindo amor/ No fundo do mar.”

Há mais de um ano vi um show do Trino, grupo de Florianópolis que toca somente canções de domínio público. Foram as letras mais bonitas que já ouvi, apesar de não saber reproduzir ou procurar nenhuma delas. Sim, ouvi aquelas canções incríveis uma única vez e parece que não preciso repetir a experiência.
A palavra incrível quer dizer: difícil de acreditar. É difícil de acreditar que exista quem não compreenda aquela que pra mim poderia ser eleita a grande letra de todos os tempos, Maracangalha de Dorival Caymmi. Aviso que é provável que quem não a entenda seja a vítima perfeita de um possível sarcasmo sagrado e absoluto que talvez ronde a música. 

Transcrevo a letra na íntegra: 

“Eu vou prá Maracangalha
Eu vou
Eu vou de liforme branco
Eu vou
Eu vou de chapéu de palha
Eu vou
Eu vou convidar Anália
Eu vou
Se Anália não quiser ir
Eu vou só
Eu vou só
Eu vou só
Se Anália não quiser ir
Eu vou só
Eu vou só
Eu vou só sem Anália
Mas eu vou...”
Mas eu vou.