quinta-feira, 9 de agosto de 2012
O Saturnino e a saga da Música Instrumental Brasileira
Acredito que o que Gabriele quis expressar, independentemente da razão ou desrazão dos rótulos, é o fato de ter sentido aqui que a força que concilia por um lado a cultura bruta, popular do Brasil com, de outro lado, a música universal mais sofisticada (do clássico ao jazz) é uma força cujos produtos não deixam nada a desejar ao que é feito no resto do mundo e que desfruta do prestígio de ser sofisticado, complexo, inteligente, ou mesmo sublime.
Grande parte dos nomes a que Gabriele se refere pertencem a um gênero de nossa música muitíssimo desconhecido e pouco aprofundado, o da Música Instrumental Brasileira. Afinal, mesmo que os nomes dos mestres desse gênero (como Egberto Gismonti, Moacir Santos, Guinga e, o mais conhecido de todos, Hermeto Pascoal) sejam pronunciados e valorizados aqui e ali, o certo é que enquanto for difícil mostrar o valor destes gigantes da música em face a tanto lixo cultural a dominar nossos meios de comunicação e modos de pensar e sentir música, estaremos ocultando de nós mesmos o que de mais forte e esperançoso há em nosso país.
É, portanto, num contexto em que a Música Instrumental ainda hoje colhe frutos vindos de um heroico trabalho de dedicação e persistência que na última quinta feira, 2 de agosto, Florianópolis recebeu a visita do excelente grupo Saturnino, vindo diretamente de Natal, apoiado pelo Jurerê Jazz, para tocar no palco do TAC e mostrar que forró, maracatu, jazz, rock e tantos outros estilos e linguagens quando misturados por grandes músicos resultam em uma arte que propõe o desafio não da mera releitura ou da grandiloquência, mas o da profunda contemporaneidade.
Formado por Zé Fontes (baixo e voz), Ronaldo Freire (flauta), Ricardo Baya (guitarra e voz), Kleber Moreira (percussão) e Darlan Marley (bateria) o grupo existente há 6 anos arrancou aplausos e pedidos de bis entusiasmadíssimos dos espectadores do show da quinta passada.
Esbanjando a comunicação que só um projeto de fato orgânico pode ter, o grupo executou predominantemente as composições que fazem parte de seu primeiro disco, Saturnino e o disco avuadô, mais versões para músicas de Hermeto, Milton Nascimento e do músico argentino Luis Salinas.
O resultado foi um show a um só tempo intenso e objetivo, onde em nenhum momento se permitia que, por exemplo, o carisma natural da música do norte do país soasse escravo da inteligência das composições.
Apostando na condução dos temas para vários “climas”, permitindo-se viagens sonoras de extensão, oportunidade e profundidade bem dosadas, a sensação é a de que o Saturnino realizou com facilidade aquilo que muitos grupos lutam para conquistar, ou seja, as plenas abertura e participação da audiência.
Na ótima abertura e formado por jovens músicos da ilha, o quinteto Quiabo fez mais que bonito diante dos mestres, ajudando a mostrar que a distância que separa o chão da grande música em nosso país é mínima e por muito tempo alçará teimosos voos independentemente de haver atenção e permissão oficiais para isso.
Você pode ouvir o cd do Saturnino em seu site: www.saturnino.com.br
Destaque para a faixa: Presente de Giba, entre todas as outras, belissimamente produzidas.
Diogo Araujo da Silva
www.tonsetoadas.blogspot.com
terça-feira, 24 de julho de 2012
Workshop - Toicinho Batera e Maurici Ramos
Dar
para Toicinho Batera e Maurici Ramos o título de dois dos maiores músicos da
ilha e, pelo menos, do sul do Brasil não é mera retórica. Aquele que
talvez seja o maior nome da batera nacional, Nenê, é fã e amigo do
Toicinho. Maurici Ramos viajou o mundo inteiro durante 4 décadas como
baterista profissional, chegando a tocar em produções da Disney e com a
Orquestra Sinfônica de Israel.
Toicinho Batera impressiona a
todos os músicos com quem toca por sua incrível habilidade de abordar a
bateria como um instrumento capaz de desequilibrar na execução de um
som. Em qualquer noite que o virmos tocar, estaremos diante de um músico
que trata seu instrumento como parte vital do próprio corpo e espírito,
levando as possibilidades da criatividade sempre ao limite. Em suas
mãos a bateria ocupa um lugar central dentro da música, não sendo nem um
pouco equivocada a impressão de que o Toicinho cumpre, tocando, as vias
de um arranjador ao vivo.
Vi Maurici Ramos tocar a primeira
vez há pouco mais de um ano em uma noite de jazz aqui no centro de
Florianópolis. Fiquei impressionado, pois nunca tinha escutado uma
bateria cantar tanto. É como se cada aspecto do instrumento tivesse sido
estudado com tanta dedicação e capricho que tudo soasse o mais
espontâneo e vivo possível, como se nada fosse técnica e tudo "melodia".
Maurici é o raro exemplo de baterista que toca com tal elegância e
domínio do instrumento que parece se ouvir, sem esforço, de todas as
distâncias no lugar em que toca. Dá prazer ouvir cada som isolado que
tira da bateria em favor da música.
Ainda mais do que
presenciar o encontro de dois monstros do instrumento, a noite de hoje
traz a figura impagável destes dois ilustres senhores que atravessaram a
vida fazendo o que mais amam que é arte, a mais genuína, inteligente,
sensível e dedicada possível.
domingo, 15 de julho de 2012
Tesouro underground em Floripa: o som e a fúria do Punk Jazz
quinta-feira, 3 de maio de 2012
O diabo sem canoa, no samba da Lagoa
Notícia em primeira mão: a Lagoa da Conceição promete ser o primeiro lugar do mundo a expulsar definitivamente o diabo e qualquer manifestação demoníaca. Sim, cada cidade do mundo de hoje tem pelo menos um redutozinho que pode servir de forte candidato à proeza. A quem interessar possa, este texto pode servir, pois, como uma defesa das particularidades objetivas de nosso candidato.Que lugar é este em que até os hippies parecem tão desocupados e seguros, tão modestos em seus planos de vida que é possível adivinhar serem donos de uma vitalícia pensão do governo? Em que outro lugar vemos hippies em todos os níveis da escala social? Que lugar é este em que os vagabundos e bêbados em geral não sentem inspiração nenhuma para protestar contra Deus ou o nada?
De fato, a Lagoa é um lugar em que Deus faz tão pouca falta que os corpos tendem à absoluta leveza transcendente. Só isto pode explicar a enorme confluência de profissionais de Buda evidentemente compenetrados em promover (talvez para logo) o primeiro levitamento público televisionado (ou podcastzado). Haverá, finalmente, um estrondo!
A Lagoa entrará para a história então como o cenário da conciliação do homem com a natureza após séculos de exploração, pois demonstrará para o mundo, entre outras coisas, que o homem está integrado ao cosmos, que devemos ouvir a música da natureza, que a razão não explica a poesia da cannabis, que um naco de gengibre pendurado na orelha e um desodorante artesanal de suor atrai mulheres como que por um feitiço e que o samba-rock-universitário-de-raiz pode conviver muito bem com o lounge-jazz tocado por uma big band de 12 argentinos tão desengonçados quanto ensaiados como um mini-circo. (Pois quem poderá defender que um jazz tocado bem é melhor do que um tocado absolutamente mal? Quem defenderá que no jazz costuma haver improviso? Não me arrisco.)
“Mas Diogo e tudo que há de raiz na Lagoa, e esta procura pelo centro do ser, pela natureza, pela ecologia mística patrocinada? E aquele samba da Lagoa?”
A diferença entre aquele som do samba da Lagoa o do Rancho do Neco (o melhor da cidade) é a mesma entre o miojo e a feijoada. Mas isto pouco parece importar para os novos lagoanos se for fácil dizer que, no caso, o miojo é de raiz.
“Mas ei Diogo e o discurso crítico? A Lagoa é o reduto de artistas e cidadãos politizados que, apesar da inabalável paz interior, estão muitíssimo ligados em tudo o que acontece na cidade!”
Pois somente na Lagoa os professores têm alvará público para arruinar os sambas tocando qualquer nota de uma trombeta em nome da democracia participativa, os boêmios esclarecidos são incapazes de abrir um boteco indecente, os poetas rimam ar com mar e ficam tristes, os músicos imberbes cacho com riacho e os políticos não conseguem puxar uma passeata, pois se sentam para ler o jornal no centrinho e uma vez lá, melancólicos como uma cabra, não conseguem tirar os olhos das tetas aditivadas das coroonas. (Estas só consigo definir como "neo-hippies que deram certo na vida.")
“E as mulheres bonitas, Diogo? Vai dizer que não há mulheres lindas e deslumbrantes na Lagoa? Você é biba?”
Estas são as primeiras a se revoltarem contra o diabo. Bebem duas cachacinhas e ficam tontas como uma pomba-gira. Passam a discursar em favor da intensidade, contra o trabalho e a favor da vida e vigiam seus pretendentes, imensos morenos vestidos igual, com as mesmas gírias incrivelmente ensaiadas, com um bom humor que sempre se pode contar, com um naco de gengibre na orelha e uma infinitamente repetida humildade como ética de vida.
Pois elas estão alertas: a qualquer sinal de manifestação do mais do que nunca temido machismo elas olham à volta e evocam todos os deuses maias, incas, hong-kongianos, taiwanianos e paraguaios, cujas imagens, como se não bastasse, encontram-se à venda em inúmeros santuários terceirizados logo ali por perto.
O resultado é assustador. Nossos malandros do samba, do reggae e do forró ficam completamente desprovidos de energia vital, abrem a boca como epiléticos e eles, que eram garantidamente morenos naturais, ficam brancos como um alemão para balbuciar: “Desculpa, gata... Eu se expressei mal.”
Então tudo fica bem. Nosso diabo, que para efeitos retóricos chamaremos aqui de Dionísio, o rei da carne e do delírio geral, volta à Bahia e que se foda: viverá dos prazeres que propiciam os créditos vindos da liberação total do uso de seu nome. Esta medida já antiga, típica de seu feitio e ainda nova para muita gente está na ponta da língua de empresários-lounge e de qualquer estudante de artes cênicas sedento por emancipar sua sexualidade reprimida.
Para terminar a campanha: tenho um grupo de amigos que usa Lagoa como adjetivo para tudo que busca a autenticidade através de raízes um tanto voadoras. “Fulano é meio Lagoa” ou “Me passa aqui essa camisa Lagoa” são frases que figuram como uma homenagem a essa nova proposta para o espírito cultural de Florianópolis: a expulsão total de Dionísio, rumo ao centro do ser.
Não desconfiam os patrocinadores desta revolução que o próprio Dionísio ganha sempre na contra-mão. Ele próprio será o primeiro a comprar a camisa com os dizeres: “Até o diabo se benze na Lagoa da Conceição.”
(fevereiro 2011)
sábado, 25 de fevereiro de 2012
Fernando Bailão: paixão pelo jazz em Florianópolis

Amanhã (domingo, dia 26) um dos músicos mais talentosos da nossa cidade estará apresentando composições suas, além de standards de jazz e música brasileira, ao lado do grande saxofonista Maycon de Souza. O evento acontece no Coisas de Maria e João em Santo Antônio de Lisboa às 19:30. O couvert é de 10 reais. Falo do grande guitarrista Fernando Bailão. Anotem esse nome!
De todos os músicos e artistas que conheço em nossa cena ilhéu, Bailão é pra mim, disparado, o mais explosivo – e no melhor sentido possível para a palavra. Como qualquer pessoa que estiver assistindo a uma de suas noites de jazz pode perceber, o envolvimento do guitarrista com cada música (de um tema acelerado a uma balada) nunca deixa de ser intensíssimo, puramente presente e entregue.
Façam o teste: enquanto o observarmos nunca sentiremos a menor desconfiança de que este músico está com a atenção voltada para outro lugar que não seja o esplendor do som e da vida. Você nunca lerá na expressão do Bailão um “o que vou jantar hoje?” e sim, sempre, um “quero tirar mais desse som, mais e mais!”
Lutando pela afirmação da música instrumental em Florianópolis da maneira mais simples e fiel, sempre com suas próprias forças, Fernando Bailão é daqueles artistas que não conseguem deixar de levar a explosão de que falo para cada segundo de seu dia-a-dia. É como se ao invés de se aproximar com respeito passivo e métodos de segurança diante do “amanhã” Bailão fosse daquelas personalidades que desafiassem e exigissem a todo momento o limite desse mesmo amanhã.
Por tudo isso, não é difícil entender a aproximação do Bailão ao jazz como sendo a mais orgânica e mágica possível: somente uma música que devora os segundos como o jazz pode dar conta da ousadia e força de uma vida como esta.
Bailão é um artista completo: não é porque sua atitude artística seja sempre a do desafio que lhe falte em algum momento uma inteligência e uma sensibilidade muitíssimo bem depuradas.
Reitero o convite que faço aqui, pois o som de amanhã traz a oportunidade especial de ouvirmos seu trabalho autoral.
A grande arte não nos cobra esforço de atenção. Ela nos dá, mais do que damos a ela. Brindemos a este grande artista e sem dúvida uma das maiores almas da nossa cidade, meu amigo Fernando Bailão!
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
Texto sobre a cena de Floripa na revista Naipe
Na nossa frente
Todo comentário é bem vindo!
terça-feira, 12 de julho de 2011
Sexta apresentação do Watch Out Jazz Quartet (12/07/11)

Terça passada no Frango e Fritas o Watch Out Jazz Quartet teve o maior público desde que começou a tocar. Na chamada de hoje falo um pouco sobre cada um dos 4 músicos que compõem o grupo.
Na guitarra está o paulista Wslley Risso, residente na ilha há dez anos, mesmo tempo que ministra aulas do instrumento e de música em geral e que toca nunca com grandes intervalos na noite da cidade.
Grande parceiro daquele que é muito provavelmente o maior músico de Florianópolis, mestre Toicinho Batera, seu estilo extremamente agressivo, de improvisos sempre arriscados e técnica incrível, remete, por essas características, ao seu grande pai musical, o saxofonista John Coltrane.
Na bateria Victor Bub é um manezinho naturalizado, dono de um estilo que combina explícita e incrivelmente sensibilidade e agressividade. Seus próprios trejeitos corporais mostram um constante esforço por interpretar criativamente tudo o que acontece na música.
Membro da grande banda Trio Butiá (grupo dedicado a composições próprias e da qual também faz parte Wslley) Victor tem se dedicado a trazer grandes nomes da música instrumental para workshops através de sua loja, a Batuka Groove.
Rafael Calegari, natural de Tubarão, é um baixista que faz questão do seu som aparecer, sendo possível quase “groovar” com ele. Como não podia ser diferente para esta banda, sua pegada é também bastante forte, seu timbre soando massudo e orgânico com grande habilidade.Não é por acidente que o vemos suar bastante durante suas apresentações: este músico talentosíssimo, cujo reconhecimento só tende a crescer a nível nacional, parece pulsar a cada instante, junto com o suingue de um simples blues ou composições voltadas para o modal.
No sax temos o manezinho da gema Giann Thomasi. Se os talentos de seus companheiros não forem suficientes para conquistar nossa audiência, que ao menos a verve e a irreverência deste monstruoso instrumentista nos provoque impressões e sorrisos.
Antes de formularmos este pensamento, somos obrigados a perceber que os chistes de um comediante estão tão presentes na sua música quanto as tradicionais armas de que se vale um pleno virtuose de um instrumento-símbolo como o sax.
Apareçam!
Forte abraço,Diogo
segunda-feira, 23 de maio de 2011
Versos da canção brasileira
Os versos: “Água de beber/ bica no quintal/ Sede de viver tudo” da música Fazenda, do Milton. Por dizerem tudo e do jeito mais sensorial e simples. Coisas que o Milton faz acontecer, como também em Os povos: “Casa iluminada/ Portão de ferro/ Cadeado /Coração.”
Gosto da simples presença da palavra foguete, em O último desejo, canção do Noel, soando no verso: “Morre hoje sem foguete.”
O verso que mais gosto do Chico Buarque é “Que a dor é tão velha/ que pode morrer”de Olê, olá (canção cujo título também é meu preferido).
Do Caetano gosto do modo como ele diz “Eu sou um leão de fogo.” (Em Terra.) Gosto da força absolutamente despojada que move os versos que abrem Tempo de estio: “Quero comer/ Quero mamar/ Quero preguiça.” (Imaginem um deus que dissesse estes versos.)
Gosto de imaginar o dia em que alguém me dirá, sem cantar, o seguinte verso de Lua, lua, lua do jeito como ele deve ser dito, como uma verdade essencial das coisas, da vida, emitida com um impulso absolutamente desprendido e apaixonado: “Meu canto não tem nada a ver com a lua.”
Gosto de imaginar o dia em que a sua Um índio será vista como a profecia escandalosa e concreta que é.
Acho a letra de Estrada do sol, feita por Dolores Duran, absolutamente linda. Estanco com espanto em cada uma de suas palavras: “É de manhã/ Vem o sol/ Mas os pingos da chuva/ Que ontem caiu.” A letra inteira parece a um só tempo simples e totalmente improvável, como se velasse um enigma puro, um jeito leve de morrer. (A versão do Milton é uma das coisas mais maravilhosas feitas nesse planeta.)
Gosto de música pop. Inexplicavelmente gosto quando o Lulu Santos canta, simplesmente: “Quando um certo alguém/ Cruzou o seu caminho.” Gosto quando Falcão do Rappa (pra mim a grande banda brasileira dos últimos 20 anos) canta: “Faça um filho comigo.” Gosto das letras da Ângela Rô Rô, pois o jeito como ela as canta, tornam-nas todas poesia pura: ela parece sugerir que a verdadeira força do poeta é fazer com que as coisas que diz, quaisquer que sejam, é que sejam belas. O poeta torna belo por dizer. Acho lindíssimo o momento em que a Marisa Monte canta “Me abraça devagar/ Me beija e me faz/ Esquecer.”
Também não sei explicar porque gosto dos versos que abrem o samba Se você jurar: “Se você jurar/ que me tem amor/ Eu/ Posso me regenerar.” (Separar estes versos pela maneira como são cantados tem um gosto incrivelmente especial... E inexplicável.)
Dos Afro-sambas de Vinícius e Baden destaco o coro de Bocoché: “Vou me casar/ Com meu lindo amor/ No fundo do mar.”
Há mais de um ano vi um show do Trino, grupo de Florianópolis que toca somente canções de domínio público. Foram as letras mais bonitas que já ouvi, apesar de não saber reproduzir ou procurar nenhuma delas. Sim, ouvi aquelas canções incríveis uma única vez e parece que não preciso repetir a experiência.
Eu vou
Eu vou de liforme branco
Eu vou
Eu vou de chapéu de palha
Eu vou
Eu vou convidar Anália
Eu vou
Se Anália não quiser ir
Eu vou só
Eu vou só
Se Anália não quiser ir
Eu vou só
Eu vou só
Eu vou só sem Anália
Mas eu vou...”
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Todas as ondas- Denise de Castro

O melhor jeito de se começar a falar sobre o disco Todas as ondas de Denise de Castro é experenciando não só os dilemas, mas também os horizontes abertos da situação atual da cultura em Florianópolis. Isto porque podemos logo dizer que poucas outras obras poderiam representar melhor do que esta a ligação entre a tradição e o futuro da música em nossa cidade.
Basta ouvirmos a primeira canção de Todas as ondas para percebermos que poucas obras poderiam encarnar mais espontaneamente a expressão e a síntese desse dilema: Na beira da praia abre o disco com um sofisticadíssimo e belo arranjo de metais que logo cede espaço para uma letra de contemplação pura, deixando claro que a obra dialogará não só com temas propriamente locais como também com a incorporação da sofisticação dos arranjos da música instrumental, sobretudo representada pela Era do jazz.
Para que a afirmação da presença deste elemento "moderno" encontrasse correspondência bastaria prestarmos atenção nos primeiros 30 segundos do disco, mas cabe também dar a dica de que um bom guia para a apreciação do álbum está em perceber a contribuição silenciosa de três músicos de apoio presentes em quase todas as faixas do disco.
São eles os integrantes daquela que na opinião deste ouvinte de música é a mais forte e madura banda de música instrumental da cidade, o Trio Butiá: Wslley Risso (guitarrista e responsável por 90% dos arranjos da obra), Alexandre Vicente (baixista) e Victor Bub (baterista).Casamento melhor não poderia haver: além de amigos, músicos familiares ao que de mais e rico e “avant guarde” se faz no jazz mundial e ilhéus naturalizados (Xandão e Victor cresceram aqui, Wslley é sem brincadeira o paulista mais manezinho do Brasil), o Trio Butiá é dono de um repertório próprio de jazz fusion que une de maneira muito particular a compreensão do improviso e da contravenção musical próprios dos grupos de jazz mais contemporâneos à riqueza rítmica e folclórica exclusiva de nosso país.

Este elenco compõe a melhor companhia para a expressão daquilo que nos parece a voz particular desse disco: a boemia “preguiçosa” e profundamente melancólica de Denise de Castro, talhada por anos de convivência com aquilo que Floripa tem de mais rico em termos musicais e culturais.
Pois que em qualquer trecho de seu canto o que ouvimos de mais evidente é o quanto de bares e estrada a artista atravessou, procurando na beleza de Florianópolis e da vida os temas para suas composições e para a aspereza doce de seu canto.
A simplicidade e a nostalgia das letras irão se unir à destreza musical de Denise na visita consciente e espontânea à Todas as ondas, aos diversos ritmos e linguagens da música tradicional nacional e contemporânea universal.

Ouvir este grande disco, encantarmo-nos com a beleza dos arranjos e com a raridade deste encontro entre vários dos artistas da cidade é ao mesmo tempo pensar espontânea e profundamente Florianópolis em seu momento mais atual.
Topamos com uma beleza forte e inequívoca ao ouvirmos as jóias raras Naufrágios demais e Praia da solidão ou a instrumental Tempo de pipa ou ainda a simplíssima e deslavada declaração de amor à ilha Berço de ouro. Mas o essencial seria que este disco tocasse repetidas vezes em nossas casas, carros e bares, educando-nos a ouvir música e a perceber os diferentes tempos convergindo em nossa cidade.
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Dê um jeito nessa casa

Se percebe a expressão de frustração e reprovação absolutas do meu camarada a cantora a princípio não se deixa constranger e reúne suas forças, redobrando os esforços para impor a sua arte: joga braços daqui pra lá, lança sorrisos até para os postes e os cachorros, requebra como (quase) toda brasileira, arregala os olhos, cospe no microfone.
Mas... Que engano o de nossa artista! Que passo em falso! Meu amigo abaixa a cabeça, dobra os joelhos e tem que cuidar em conter sua típica fúria de diabo de baixo calão: “Essa mulher é uma histérica... Não é assim, não é assim... Pelamordedeus!”, mão na testa, “Chamem a Samu! Vou morrer!”
Um outro amigo (que mantenho anônimo para não agravar ainda mais o seu delicado estado de saúde espiritual) é um tanto mais ambicioso e prepara trapaças silenciosas para concretizar de uma vez, apoteoticamente, o fim da arte e da sensibilidade.
Seu rancor diante do Ocidente é evidentíssimo: “Devemos nos tornar robôs, esta é a saída”me confessa sussurrando, usando e abusando daquilo que nosso ilustre coringa Caetano Veloso uma vez chamou de “intimidade conspiratória” para definir o tom de voz de Glauber Rocha.
Compreendo-os. São tempos em que todos os milagres têm dono. Dionísio aproveitaria a folga para cair na gandaia, mas cora e se considera pouco inventivo. “Todos somos metade poetas românticos e metade salvadores da pátria” um Nelson Rodrigues poderia dizer. O silêncio e o mais suave gesto do pudor foram para o beleléu: agora todos queremos Catarse. O Camilo e o Epiléptico, não por menos, se descabelam.
Apresentei pra este último alguns filmes do cineasta francês Robert Bresson, conhecido por não trabalhar com atores profissionais, mas com o que ele chama de “modelos”, por quase não usar trilha sonora, por gravar, de perto e com lentidão, gestos cotidianos em cenas aparentemente insignificantes, e ainda por cima usar um narrador em off descrevendo com palavras (repetindo) os mesmos gestos mostrados.
O Epiléptico chorou, quase subiu aos céus: “Um gênio, um gênio! Nunca pensei que a França pudesse produzir um gênio! Ai meu deus, ai meu deus! Um gênio... Francês!!! É o apocalipse!”
O caro Camilo também não é só ódio incontido: vira doce como um carnerinho quando me leva pra conhecer uma cantora que traz as virtudes que lhe agradam: “Olha que maravilha... Essa é a maior cantora do Brasil! Olha!” Sorri como uma criança e diz que o canto tem de ser assim, tem de apenas passar pela cantora, sem esforço... Zero de interpretação.
E dia desses vi uma peça que ambos os meus amigos teriam gostado muito. Se tivessem paciência pra entrar num teatro os convidaria de bom grado. Mas não dá. Um, o Camilo, procura em todo canto o seu merecido Alzheimer – benção dos “malandros em fim de carreira”, sedentos por apagarem seus pecados antes do acerto de contas. O outro dá chiliques se o separam de sua esposa, a “Tudisinha” – Gertrudes, uma senhora alemã imensa em tamanho, despudor e decibéis.

Toda essa introdução exagerada e quase mentirosa me serve apenas pra falar da minha alegria ao ver surgir esse novo grupo de teatro em Florianópolis, o Tal Grupo.
Estas palavras talvez venham cedo demais, pois é apenas a terceira vez que esta peça é apresentada. Mas que seja. Que elas tornem ainda mais leve e simples, mais lúcida, a procura dessas quatro estudantes de artes cênicas com carinha de anjo e suingue de gente madura.
A peça é a coisa mais simples do mundo: as três atrizes sorteiam os três personagens no começo do espetáculo com a ajuda da platéia. O cenário é uma casa imaginada, apenas sugerida por pouquíssimos elementos. Ela é inclusive quase inteiramente composta em nossa frente por um dos personagens.
Os três personagens são ocos, quase robôs, não têm profundidade alguma: o alcance de seus dramas e desesperos é minúsculo. São infantis e quase totalmente ensimesmados. Por mais que tentem entender o rancor (fonte de inspiração mais requisitada por nossos aflitíssimos artistas contemporâneos) tudo recai num esquecimento sem drama, sem peso.
Não há nunca o encontro com um motivo palpável para que um desespero heróico se justifique, para que nós espectadores nos vejamos mais uma vez conduzidos ao tenebroso Vale da Melancolia.
Para enfrentar esta apatia, um casal de personagens conta com a ajuda de uma espécie de terapeuta familiar surreal, totalmente ingênuo e igualmente perdido. Este monta e desmonta métodos com uma pra lá de notável aspiração objetivista, voltada para registrar e entender a incompreensão entre seus clientes, mas seus exageros matemáticos apenas apontam para seu próprio espanto diante do mundo.
O vazio, posto no meio da peça como um boi, dá uma sutil atmosfera non-sense a toda extensão do espetáculo, mas ganha sentido pleno é com as belas atuações deste trio: tomá-las por mocinhas recém saídas da adolescência pode ser um engano fatal.
A afinidade afetiva existente entre as três é de fato tão evidente que o silêncio nunca pesa, pelo contrário, compõe a própria espera para que a graça, já prevista nele, apareça naturalmente com a simples emissão de um “Merda!”, um jeito de olhar o imaginário olho mágico ou um momento e um jeito de comer banana.
Repito que o espetáculo é novo: ainda não saiu de dentro dos muros da universidade estadual. Não está em cartaz. Não tem previsão para estar.
Mas fica aqui um aceno para a promessa de uma obra que evita tanto bajular o público com a graça fácil, quanto apenas o constranger com um ativismo vazio e uma agressividade autista.
A verdadeira intimidade com uma arte e com o próprio silêncio talvez esteja no gesto de esvaziar o interlocutor de expectativas, sabendo apenas deixar passar, apenas apontar silenciosamente para o milagre puro e incompreensível, que beira o sem-sentido e que faz rir.
terça-feira, 20 de abril de 2010
Primeiro e novíssimo disco do Trio Ponteio


