terça-feira, 24 de julho de 2012

Workshop - Toicinho Batera e Maurici Ramos

 
 
Dar para Toicinho Batera e Maurici Ramos o título de dois dos maiores músicos da ilha e, pelo menos, do sul do Brasil não é mera retórica. Aquele que talvez seja o maior nome da batera nacional, Nenê, é fã e amigo do Toicinho. Maurici Ramos viajou o mundo inteiro durante 4 décadas como baterista profissional, chegando a tocar em produções da Disney e com a Orquestra Sinfônica de Israel.

Toicinho Batera impressiona a todos os músicos com quem toca por sua incrível habilidade de abordar a bateria como um instrumento capaz de desequilibrar na execução de um som. Em qualquer noite que o virmos tocar, estaremos diante de um músico que trata seu instrumento como parte vital do próprio corpo e espírito, levando as possibilidades da criatividade sempre ao limite. Em suas mãos a bateria ocupa um lugar central dentro da música, não sendo nem um pouco equivocada a impressão de que o Toicinho cumpre, tocando, as vias de um arranjador ao vivo.

Vi Maurici Ramos tocar a primeira vez há pouco mais de um ano em uma noite de jazz aqui no centro de Florianópolis. Fiquei impressionado, pois nunca tinha escutado uma bateria cantar tanto. É como se cada aspecto do instrumento tivesse sido estudado com tanta dedicação e capricho que tudo soasse o mais espontâneo e vivo possível, como se nada fosse técnica e tudo "melodia". Maurici é o raro exemplo de baterista que toca com tal elegância e domínio do instrumento que parece se ouvir, sem esforço, de todas as distâncias no lugar em que toca. Dá prazer ouvir cada som isolado que tira da bateria em favor da música.

Ainda mais do que presenciar o encontro de dois monstros do instrumento, a noite de hoje traz a figura impagável destes dois ilustres senhores que atravessaram a vida fazendo o que mais amam que é arte, a mais genuína, inteligente, sensível e dedicada possível.

domingo, 15 de julho de 2012

Tesouro underground em Floripa: o som e a fúria do Punk Jazz


fotos: Jordane Câmara

Apesar do nome do evento poder suscitar certo espanto, o Punk Jazz nada tem a ver com arte conceitual ou com pretensões a apresentar alguma nova mistura ou experimentação destas que acabam fazendo da arte um ring de estupro do apelativo.

Quem esbarrar na simplicidade dos 4 integrantes da banda, que volta a se apresentar no Blues Velvet esta terça, dia 17 de julho, poderá até duvidar do fato de que sejam artistas.


Após 5 minutos de atenção no som feito por Xandão (baixo), Wslley Risso (guitarra), Victor Bub (bateria) e Giann Thomasi (sax), no entanto, estamos convidados a entrar num universo de incríveis técnica, intensidade e bom gosto sonoros onde acredito ser bem fácil entender o nome do projeto – que faz menção a uma música do grande grupo de jazz-fusion Weather Report.

Aos amantes do underground e das descobertas de tesouros urbanos muito recomendo comparecerem neste bar que, dada sua localização e charme lo-fi, possibilita que o jazz tenha muito mais do que o volume de música ambiente.

Acredito que estamos diante de 4 músicos profissionais e adultos, já maduros esteticamente e sabendo o que querem de si mesmos e do som.

Vale a pena prestar atenção na personalidade dos instrumentos dentro de cada tema para que se sinta a presença destes quatro cidadãos na execução de uma música que em muitos aspectos é criada na nossa frente.
    

Um comentário comum de amigos que simpatizam com o jazz é o da dificuldade que têm em “entender tudo” o que se passa numa execução deste tipo de som.

Compreendo-os muito bem, em parte por sempre sentir o mesmo (e achando que a graça é essa) e em parte por perceber que tal sensação pode ter muito a ver simplesmente com a baixa atenção que os meios tradicionais de comunicação em nosso país dão ao estilo, fazendo com que a formação de uma familiaridade natural que se dá, bem ou mal, com outros tipos de música não seja tão comum em relação a ele.

 
De fato, não é casual a alcunha de “música inteligente” que o jazz tem. O estranho é que batizando-o assim por vezes se esqueça que altos teores de força, irrazão e paixão estão igualmente presentes no mesmo. Afinal, trata-se de um som atravessado essencialmente pelo improviso, o que naturalmente podemos pensar justo como um desafio à inteligência.

A recompensa por adentrar no mundo do jazz é o de adquirir o vício em uma música que de tão sensual e inteligente (pela quantidade de informações e pela exuberância da execução) parece poder entorpecer naturalmente o ouvinte, como o cheiro de uma boa cachaça, o gosto de um bom papo, uma carícia amorosa ou, simplesmente, a certeza da participação no pleno gozo da vida.










quinta-feira, 3 de maio de 2012

O diabo sem canoa, no samba da Lagoa

Notícia em primeira mão: a Lagoa da Conceição promete ser o primeiro lugar do mundo a expulsar definitivamente o diabo e qualquer manifestação demoníaca. Sim, cada cidade do mundo de hoje tem pelo menos um redutozinho que pode servir de forte candidato à proeza. A quem interessar possa, este texto pode servir, pois, como uma defesa das particularidades objetivas de nosso candidato.

Que lugar é este em que até os hippies parecem tão desocupados e seguros, tão modestos em seus planos de vida que é possível adivinhar serem donos de uma vitalícia pensão do governo? Em que outro lugar vemos hippies em todos os níveis da escala social? Que lugar é este em que os vagabundos e bêbados em geral não sentem inspiração nenhuma para protestar contra Deus ou o nada?

De fato, a Lagoa é um lugar em que Deus faz tão pouca falta que os corpos tendem à absoluta leveza transcendente. Só isto pode explicar a enorme confluência de profissionais de Buda evidentemente compenetrados em promover (talvez para logo) o primeiro levitamento público televisionado (ou podcastzado). Haverá, finalmente, um estrondo!

A Lagoa entrará para a história então como o cenário da conciliação do homem com a natureza após séculos de exploração, pois demonstrará para o mundo, entre outras coisas, que o homem está integrado ao cosmos, que devemos ouvir a música da natureza, que a razão não explica a poesia da cannabis, que um naco de gengibre pendurado na orelha e um desodorante artesanal de suor atrai mulheres como que por um feitiço e que o samba-rock-universitário-de-raiz pode conviver muito bem com o lounge-jazz tocado por uma big band de 12 argentinos tão desengonçados quanto ensaiados como um mini-circo. (Pois quem poderá defender que um jazz tocado bem é melhor do que um tocado absolutamente mal? Quem defenderá que no jazz costuma haver improviso? Não me arrisco.)

“Mas Diogo e tudo que há de raiz na Lagoa, e esta procura pelo centro do ser, pela natureza, pela ecologia mística patrocinada? E aquele samba da Lagoa?”

A diferença entre aquele som do samba da Lagoa o do Rancho do Neco (o melhor da cidade) é a mesma entre o miojo e a feijoada. Mas isto pouco parece importar para os novos lagoanos se for fácil dizer que, no caso, o miojo é de raiz.

“Mas ei Diogo e o discurso crítico? A Lagoa é o reduto de artistas e cidadãos politizados que, apesar da inabalável paz interior, estão muitíssimo ligados em tudo o que acontece na cidade!”

Pois somente na Lagoa os professores têm alvará público para arruinar os sambas tocando qualquer nota de uma trombeta em nome da democracia participativa, os boêmios esclarecidos são incapazes de abrir um boteco indecente, os poetas rimam ar com mar e ficam tristes, os músicos imberbes cacho com riacho e os políticos não conseguem puxar uma passeata, pois se sentam para ler o jornal no centrinho e uma vez lá, melancólicos como uma cabra, não conseguem tirar os olhos das tetas aditivadas das coroonas. (Estas só consigo definir como "neo-hippies que deram certo na vida.")

“E as mulheres bonitas, Diogo? Vai dizer que não há mulheres lindas e deslumbrantes na Lagoa? Você é biba?”

Estas são as primeiras a se revoltarem contra o diabo. Bebem duas cachacinhas e ficam tontas como uma pomba-gira. Passam a discursar em favor da intensidade, contra o trabalho e a favor da vida e vigiam seus pretendentes, imensos morenos vestidos igual, com as mesmas gírias incrivelmente ensaiadas, com um bom humor que sempre se pode contar, com um naco de gengibre na orelha e uma infinitamente repetida humildade como ética de vida.

Pois elas estão alertas: a qualquer sinal de manifestação do mais do que nunca temido machismo elas olham à volta e evocam todos os deuses maias, incas, hong-kongianos, taiwanianos e paraguaios, cujas imagens, como se não bastasse, encontram-se à venda em inúmeros santuários terceirizados logo ali por perto.

O resultado é assustador. Nossos malandros do samba, do reggae e do forró ficam completamente desprovidos de energia vital, abrem a boca como epiléticos e eles, que eram garantidamente morenos naturais, ficam brancos como um alemão para balbuciar: “Desculpa, gata... Eu se expressei mal.”

Então tudo fica bem. Nosso diabo, que para efeitos retóricos chamaremos aqui de Dionísio, o rei da carne e do delírio geral, volta à Bahia e que se foda: viverá dos prazeres que propiciam os créditos vindos da liberação total do uso de seu nome. Esta medida já antiga, típica de seu feitio e ainda nova para muita gente está na ponta da língua de empresários-lounge e de qualquer estudante de artes cênicas sedento por emancipar sua sexualidade reprimida.

Para terminar a campanha: tenho um grupo de amigos que usa Lagoa como adjetivo para tudo que busca a autenticidade através de raízes um tanto voadoras. “Fulano é meio Lagoa” ou “Me passa aqui essa camisa Lagoa” são frases que figuram como uma homenagem a essa nova proposta para o espírito cultural de Florianópolis: a expulsão total de Dionísio, rumo ao centro do ser.

Não desconfiam os patrocinadores desta revolução que o próprio Dionísio ganha sempre na contra-mão. Ele próprio será o primeiro a comprar a camisa com os dizeres: “Até o diabo se benze na Lagoa da Conceição.”

(fevereiro 2011)

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Fernando Bailão: paixão pelo jazz em Florianópolis


Amanhã (domingo, dia 26) um dos músicos mais talentosos da nossa cidade estará apresentando composições suas, além de standards de jazz e música brasileira, ao lado do grande saxofonista Maycon de Souza. O evento acontece no Coisas de Maria e João em Santo Antônio de Lisboa às 19:30. O couvert é de 10 reais. Falo do grande guitarrista Fernando Bailão. Anotem esse nome!

De todos os músicos e artistas que conheço em nossa cena ilhéu, Bailão é pra mim, disparado, o mais explosivo – e no melhor sentido possível para a palavra. Como qualquer pessoa que estiver assistindo a uma de suas noites de jazz pode perceber, o envolvimento do guitarrista com cada música (de um tema acelerado a uma balada) nunca deixa de ser intensíssimo, puramente presente e entregue.

Façam o teste: enquanto o observarmos nunca sentiremos a menor desconfiança de que este músico está com a atenção voltada para outro lugar que não seja o esplendor do som e da vida. Você nunca lerá na expressão do Bailão um “o que vou jantar hoje?” e sim, sempre, um “quero tirar mais desse som, mais e mais!”

Lutando pela afirmação da música instrumental em Florianópolis da maneira mais simples e fiel, sempre com suas próprias forças, Fernando Bailão é daqueles artistas que não conseguem deixar de levar a explosão de que falo para cada segundo de seu dia-a-dia. É como se ao invés de se aproximar com respeito passivo e métodos de segurança diante do “amanhã” Bailão fosse daquelas personalidades que desafiassem e exigissem a todo momento o limite desse mesmo amanhã.

Por tudo isso, não é difícil entender a aproximação do Bailão ao jazz como sendo a mais orgânica e mágica possível: somente uma música que devora os segundos como o jazz pode dar conta da ousadia e força de uma vida como esta.

Bailão é um artista completo: não é porque sua atitude artística seja sempre a do desafio que lhe falte em algum momento uma inteligência e uma sensibilidade muitíssimo bem depuradas.

Reitero o convite que faço aqui, pois o som de amanhã traz a oportunidade especial de ouvirmos seu trabalho autoral.

A grande arte não nos cobra esforço de atenção. Ela nos dá, mais do que damos a ela. Brindemos a este grande artista e sem dúvida uma das maiores almas da nossa cidade, meu amigo Fernando Bailão!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Texto sobre a cena de Floripa na revista Naipe

Em meu sexto texto pelo blog Pirão da revista Naipe, tentei descrever um pouco dos novos caminhos da cena de música de Florianópolis.

Na nossa frente

Todo comentário é bem vindo!

terça-feira, 12 de julho de 2011

Sexta apresentação do Watch Out Jazz Quartet (12/07/11)


Terça passada no Frango e Fritas o Watch Out Jazz Quartet teve o maior público desde que começou a tocar. Na chamada de hoje falo um pouco sobre cada um dos 4 músicos que compõem o grupo.

Na guitarra está o paulista Wslley Risso, residente na ilha há dez anos, mesmo tempo que ministra aulas do instrumento e de música em geral e que toca nunca com grandes intervalos na noite da cidade.

Grande parceiro daquele que é muito provavelmente o maior músico de Florianópolis, mestre Toicinho Batera, seu estilo extremamente agressivo, de improvisos sempre arriscados e técnica incrível, remete, por essas características, ao seu grande pai musical, o saxofonista John Coltrane.

Grande admirador da música brasileira, estudou com grandes mestres da guitarra do Brasil como Olmir Stocker e Mozart Mello e exerce com enorme assiduidade também o trabalho de compositor e arranjador.

Na bateria Victor Bub é um manezinho naturalizado, dono de um estilo que combina explícita e incrivelmente sensibilidade e agressividade. Seus próprios trejeitos corporais mostram um constante esforço por interpretar criativamente tudo o que acontece na música.

Grande admirador do estilo do gigante Tony Williams, Victor possui a enorme virtude de saber ouvir “o que a música pede” sem deixar de surpreender pela ousadia, bom gosto e enorme violência de seu som.

Membro da grande banda Trio Butiá (grupo dedicado a composições próprias e da qual também faz parte Wslley) Victor tem se dedicado a trazer grandes nomes da música instrumental para workshops através de sua loja, a Batuka Groove.

Rafael Calegari, natural de Tubarão, é um baixista que faz questão do seu som aparecer, sendo possível quase “groovar” com ele. Como não podia ser diferente para esta banda, sua pegada é também bastante forte, seu timbre soando massudo e orgânico com grande habilidade.

Não é por acidente que o vemos suar bastante durante suas apresentações: este músico talentosíssimo, cujo reconhecimento só tende a crescer a nível nacional, parece pulsar a cada instante, junto com o suingue de um simples blues ou composições voltadas para o modal.

Membro de outro grupo de enorme destaque da ilha, o Quarteto Rio Vermelho, Rafael também se dedica ao trabalho de compositor, ao mesmo tempo que acompanha nomes de destaque do cenário nacional, como recentemente Jorge Vercilo.

No sax temos o manezinho da gema Giann Thomasi. Se os talentos de seus companheiros não forem suficientes para conquistar nossa audiência, que ao menos a verve e a irreverência deste monstruoso instrumentista nos provoque impressões e sorrisos.

Grande admirador dos maiores nomes do sax contemporâneo como Chris Potter e Michael Brecker, Giann não poupa um segundo de fôlego atirando milhares de notas na cara do espectador sem que este tenha tempo para sequer pensar que está diante de um instrumentista “exagerado” ou excessivo.

Antes de formularmos este pensamento, somos obrigados a perceber que os chistes de um comediante estão tão presentes na sua música quanto as tradicionais armas de que se vale um pleno virtuose de um instrumento-símbolo como o sax.

Vale a pena comparecer nesta terça para presenciar este encontro de seres humanos simples que se entregam inteiramente a um momento em que toda esta análise pode ser recusada, deixada de lado, em nome do amor ao risco e improviso, percorrendo todas as hipóteses do som.

Apareçam!

Forte abraço,

Diogo

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Versos da canção brasileira


para Denise de Castro e os novos músicos de Floripa
Alguns versos que gosto na poesia da canção brasileira:

Os versos: “Água de beber/ bica no quintal/ Sede de viver tudo” da música Fazenda, do Milton. Por dizerem tudo e do jeito mais sensorial e simples. Coisas que o Milton faz acontecer, como também em Os povos: “Casa iluminada/ Portão de ferro/ Cadeado /Coração.”

Gosto da simples presença da palavra foguete, em O último desejo, canção do Noel, soando no verso: “Morre hoje sem foguete.”

O verso que mais gosto do Chico Buarque é “Que a dor é tão velha/ que pode morrer”de Olê, olá (canção cujo título também é meu preferido).
Do Caetano gosto do modo como ele diz “Eu sou um leão de fogo.” (Em Terra.) Gosto da força absolutamente despojada que move os versos que abrem Tempo de estio: “Quero comer/ Quero mamar/ Quero preguiça.” (Imaginem um deus que dissesse estes versos.)

Gosto de imaginar o dia em que alguém me dirá, sem cantar, o seguinte verso de Lua, lua, lua do jeito como ele deve ser dito, como uma verdade essencial das coisas, da vida, emitida com um impulso absolutamente desprendido e apaixonado: “Meu canto não tem nada a ver com a lua.”
Gosto de imaginar o dia em que a sua Um índio será vista como a profecia escandalosa e concreta que é.
Acho a letra de Estrada do sol, feita por Dolores Duran, absolutamente linda. Estanco com espanto em cada uma de suas palavras: “É de manhã/ Vem o sol/ Mas os pingos da chuva/ Que ontem caiu.” A letra inteira parece a um só tempo simples e totalmente improvável, como se velasse um enigma puro, um jeito leve de morrer. (A versão do Milton é uma das coisas mais maravilhosas feitas nesse planeta.)

Gosto de música pop. Inexplicavelmente gosto quando o Lulu Santos canta, simplesmente: “Quando um certo alguém/ Cruzou o seu caminho.” Gosto quando Falcão do Rappa (pra mim a grande banda brasileira dos últimos 20 anos) canta: “Faça um filho comigo.” Gosto das letras da Ângela Rô Rô, pois o jeito como ela as canta, tornam-nas todas poesia pura: ela parece sugerir que a verdadeira força do poeta é fazer com que as coisas que diz, quaisquer que sejam, é que sejam belas. O poeta torna belo por dizer. Acho lindíssimo o momento em que a Marisa Monte canta “Me abraça devagar/ Me beija e me faz/ Esquecer.”

Também não sei explicar porque gosto dos versos que abrem o samba Se você jurar: “Se você jurar/ que me tem amor/ Eu/ Posso me regenerar.” (Separar estes versos pela maneira como são cantados tem um gosto incrivelmente especial... E inexplicável.)

Dos Afro-sambas de Vinícius e Baden destaco o coro de Bocoché: “Vou me casar/ Com meu lindo amor/ No fundo do mar.”

Há mais de um ano vi um show do Trino, grupo de Florianópolis que toca somente canções de domínio público. Foram as letras mais bonitas que já ouvi, apesar de não saber reproduzir ou procurar nenhuma delas. Sim, ouvi aquelas canções incríveis uma única vez e parece que não preciso repetir a experiência.
A palavra incrível quer dizer: difícil de acreditar. É difícil de acreditar que exista quem não compreenda aquela que pra mim poderia ser eleita a grande letra de todos os tempos, Maracangalha de Dorival Caymmi. Aviso que é provável que quem não a entenda seja a vítima perfeita de um possível sarcasmo sagrado e absoluto que talvez ronde a música. 

Transcrevo a letra na íntegra: 

“Eu vou prá Maracangalha
Eu vou
Eu vou de liforme branco
Eu vou
Eu vou de chapéu de palha
Eu vou
Eu vou convidar Anália
Eu vou
Se Anália não quiser ir
Eu vou só
Eu vou só
Eu vou só
Se Anália não quiser ir
Eu vou só
Eu vou só
Eu vou só sem Anália
Mas eu vou...”
Mas eu vou.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Todas as ondas- Denise de Castro




O melhor jeito de se começar a falar sobre o disco Todas as ondas de Denise de Castro é experenciando não só os dilemas, mas também os horizontes abertos da situação atual da cultura em Florianópolis. Isto porque podemos logo dizer que poucas outras obras poderiam representar melhor do que esta a ligação entre a tradição e o futuro da música em nossa cidade.

É a própria Denise que encarna aquilo que por muitos é visto como um drama na capital de Santa Catarina: a existência de uma tradição rica e pouco explorada própria da identidade de Florianópolis (tradição que teria como patronos Zininho e Franklin Cascaes, a maneira como a cultura negra e a açoriana se encontram na cidade) que mais do que nunca parece se chocar e se diluir em face à chegada de uma espécie de responsabilidade de Floripa se assumir como um pólo cosmopolita, voltado ao moderno - fenômeno que, em hipótese, dispensaria qualquer apego ao passado.

Basta ouvirmos a primeira canção de Todas as ondas para percebermos que poucas obras poderiam encarnar mais espontaneamente a expressão e a síntese desse dilema: Na beira da praia abre o disco com um sofisticadíssimo e belo arranjo de metais que logo cede espaço para uma letra de contemplação pura, deixando claro que a obra dialogará não só com temas propriamente locais como também com a incorporação da sofisticação dos arranjos da música instrumental, sobretudo representada pela Era do jazz.

Para que a afirmação da presença deste elemento "moderno" encontrasse correspondência bastaria prestarmos atenção nos primeiros 30 segundos do disco, mas cabe também dar a dica de que um bom guia para a apreciação do álbum está em perceber a contribuição silenciosa de três músicos de apoio presentes em quase todas as faixas do disco.

São eles os integrantes daquela que na opinião deste ouvinte de música é a mais forte e madura banda de música instrumental da cidade, o Trio Butiá: Wslley Risso (guitarrista e responsável por 90% dos arranjos da obra), Alexandre Vicente (baixista) e Victor Bub (baterista).

Casamento melhor não poderia haver: além de amigos, músicos familiares ao que de mais e rico e “avant guarde” se faz no jazz mundial e ilhéus naturalizados (Xandão e Victor cresceram aqui, Wslley é sem brincadeira o paulista mais manezinho do Brasil), o Trio Butiá é dono de um repertório próprio de jazz fusion que une de maneira muito particular a compreensão do improviso e da contravenção musical próprios dos grupos de jazz mais contemporâneos à riqueza rítmica e folclórica exclusiva de nosso país.


Junto a eles, estão vários dos músicos que melhor podem esclarecer a relação entre passado, presente e futuro da música em Floripa: a saxofonista Sílvia Beraldo Bastos (musicista cuja importância para a cena da cidade nunca é suficiente ressaltar), o trombonista Marco Aurélio (dos nossos atuais boêmios, muito provavelmente o maior), o trompetista Fidel Piñero, o grupo Um Bom Partido...

Este elenco compõe a melhor companhia para a expressão daquilo que nos parece a voz particular desse disco: a boemia “preguiçosa” e profundamente melancólica de Denise de Castro, talhada por anos de convivência com aquilo que Floripa tem de mais rico em termos musicais e culturais.

Pois que em qualquer trecho de seu canto o que ouvimos de mais evidente é o quanto de bares e estrada a artista atravessou, procurando na beleza de Florianópolis e da vida os temas para suas composições e para a aspereza doce de seu canto.

A simplicidade e a nostalgia das letras irão se unir à destreza musical de Denise na visita consciente e espontânea à Todas as ondas, aos diversos ritmos e linguagens da música tradicional nacional e contemporânea universal.

Acredito não ser equivocado afirmar que uma das forças grandiosas deste disco é seu poder de síntese e de leve abertura de caminhos. Apenas por , com autoridade, fazer encontrarem-se a música “de raiz” brasileira e ilhéu com a crescente cena de música instrumental (universal) da cidade, Denise cumpre seu papel como artista de seu lugar e seu tempo.


Ouvir este grande disco, encantarmo-nos com a beleza dos arranjos e com a raridade deste encontro entre vários dos artistas da cidade é ao mesmo tempo pensar espontânea e profundamente Florianópolis em seu momento mais atual.

Topamos com uma beleza forte e inequívoca ao ouvirmos as jóias raras Naufrágios demais e Praia da solidão ou a instrumental Tempo de pipa ou ainda a simplíssima e deslavada declaração de amor à ilha Berço de ouro. Mas o essencial seria que este disco tocasse repetidas vezes em nossas casas, carros e bares, educando-nos a ouvir música e a perceber os diferentes tempos convergindo em nossa cidade.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Dê um jeito nessa casa

Tal grupo


Meu bom e velho amigo Camilo roda a baiana, sapateia no asfalto toda vez que vê e ouve uma cantora ruim: “Olha ela, olha ela... Ai que dor de barriga... Medíocre, desgraçada...! Tsc, tsc, tsc Está completamente equivocada!” Diz isso com seu sotaque carioca, sua entonação ajustada cenicamente para o macabro e com uma amargura sempre e sempre nova. Encara a artista sem pudor algum, como se pudesse atirá-la ao inferno naquele mesmo instante.

Se percebe a expressão de frustração e reprovação absolutas do meu camarada a cantora a princípio não se deixa constranger e reúne suas forças, redobrando os esforços para impor a sua arte: joga braços daqui pra lá, lança sorrisos até para os postes e os cachorros, requebra como (quase) toda brasileira, arregala os olhos, cospe no microfone.

Mas... Que engano o de nossa artista! Que passo em falso! Meu amigo abaixa a cabeça, dobra os joelhos e tem que cuidar em conter sua típica fúria de diabo de baixo calão: “Essa mulher é uma histérica... Não é assim, não é assim... Pelamordedeus!”, mão na testa, “Chamem a Samu! Vou morrer!”

Um outro amigo (que mantenho anônimo para não agravar ainda mais o seu delicado estado de saúde espiritual) é um tanto mais ambicioso e prepara trapaças silenciosas para concretizar de uma vez, apoteoticamente, o fim da arte e da sensibilidade.

Seu rancor diante do Ocidente é evidentíssimo: “Devemos nos tornar robôs, esta é a saída”me confessa sussurrando, usando e abusando daquilo que nosso ilustre coringa Caetano Veloso uma vez chamou de “intimidade conspiratória” para definir o tom de voz de Glauber Rocha.

Compreendo-os. São tempos em que todos os milagres têm dono. Dionísio aproveitaria a folga para cair na gandaia, mas cora e se considera pouco inventivo. “Todos somos metade poetas românticos e metade salvadores da pátria” um Nelson Rodrigues poderia dizer. O silêncio e o mais suave gesto do pudor foram para o beleléu: agora todos queremos Catarse. O Camilo e o Epiléptico, não por menos, se descabelam.

Apresentei pra este último alguns filmes do cineasta francês Robert Bresson, conhecido por não trabalhar com atores profissionais, mas com o que ele chama de “modelos”, por quase não usar trilha sonora, por gravar, de perto e com lentidão, gestos cotidianos em cenas aparentemente insignificantes, e ainda por cima usar um narrador em off descrevendo com palavras (repetindo) os mesmos gestos mostrados.

O Epiléptico chorou, quase subiu aos céus: “Um gênio, um gênio! Nunca pensei que a França pudesse produzir um gênio! Ai meu deus, ai meu deus! Um gênio... Francês!!! É o apocalipse!”

O caro Camilo também não é só ódio incontido: vira doce como um carnerinho quando me leva pra conhecer uma cantora que traz as virtudes que lhe agradam: “Olha que maravilha... Essa é a maior cantora do Brasil! Olha!” Sorri como uma criança e diz que o canto tem de ser assim, tem de apenas passar pela cantora, sem esforço... Zero de interpretação.

E dia desses vi uma peça que ambos os meus amigos teriam gostado muito. Se tivessem paciência pra entrar num teatro os convidaria de bom grado. Mas não dá. Um, o Camilo, procura em todo canto o seu merecido Alzheimer – benção dos “malandros em fim de carreira”, sedentos por apagarem seus pecados antes do acerto de contas. O outro dá chiliques se o separam de sua esposa, a “Tudisinha” – Gertrudes, uma senhora alemã imensa em tamanho, despudor e decibéis.

Eu, ainda jovem e com saúde e autonomia pra dar e vender, fui ver esse tal espetáculo “Dê um jeito nessa casa”. Caso o enredo fosse um desastre, meu prêmio de consolação era o próprio elenco – três beldades: Nathalie, Naiara e Bárbara. A diretora, Karine, era uma quarta. Nenhuma delas quererá nada comigo, adianto, mas, justo por isso, é bom aproveitar estes momentos em que a arte nos permite o voyeurismo mais puro, inocente.

Toda essa introdução exagerada e quase mentirosa me serve apenas pra falar da minha alegria ao ver surgir esse novo grupo de teatro em Florianópolis, o Tal Grupo.

Estas palavras talvez venham cedo demais, pois é apenas a terceira vez que esta peça é apresentada. Mas que seja. Que elas tornem ainda mais leve e simples, mais lúcida, a procura dessas quatro estudantes de artes cênicas com carinha de anjo e suingue de gente madura.

A peça é a coisa mais simples do mundo: as três atrizes sorteiam os três personagens no começo do espetáculo com a ajuda da platéia. O cenário é uma casa imaginada, apenas sugerida por pouquíssimos elementos. Ela é inclusive quase inteiramente composta em nossa frente por um dos personagens.

Os três personagens são ocos, quase robôs, não têm profundidade alguma: o alcance de seus dramas e desesperos é minúsculo. São infantis e quase totalmente ensimesmados. Por mais que tentem entender o rancor (fonte de inspiração mais requisitada por nossos aflitíssimos artistas contemporâneos) tudo recai num esquecimento sem drama, sem peso.

Não há nunca o encontro com um motivo palpável para que um desespero heróico se justifique, para que nós espectadores nos vejamos mais uma vez conduzidos ao tenebroso Vale da Melancolia.

Para enfrentar esta apatia, um casal de personagens conta com a ajuda de uma espécie de terapeuta familiar surreal, totalmente ingênuo e igualmente perdido. Este monta e desmonta métodos com uma pra lá de notável aspiração objetivista, voltada para registrar e entender a incompreensão entre seus clientes, mas seus exageros matemáticos apenas apontam para seu próprio espanto diante do mundo.

O vazio, posto no meio da peça como um boi, dá uma sutil atmosfera non-sense a toda extensão do espetáculo, mas ganha sentido pleno é com as belas atuações deste trio: tomá-las por mocinhas recém saídas da adolescência pode ser um engano fatal.

A afinidade afetiva existente entre as três é de fato tão evidente que o silêncio nunca pesa, pelo contrário, compõe a própria espera para que a graça, já prevista nele, apareça naturalmente com a simples emissão de um “Merda!”, um jeito de olhar o imaginário olho mágico ou um momento e um jeito de comer banana.

Repito que o espetáculo é novo: ainda não saiu de dentro dos muros da universidade estadual. Não está em cartaz. Não tem previsão para estar.

Mas fica aqui um aceno para a promessa de uma obra que evita tanto bajular o público com a graça fácil, quanto apenas o constranger com um ativismo vazio e uma agressividade autista.

A verdadeira intimidade com uma arte e com o próprio silêncio talvez esteja no gesto de esvaziar o interlocutor de expectativas, sabendo apenas deixar passar, apenas apontar silenciosamente para o milagre puro e incompreensível, que beira o sem-sentido e que faz rir.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Primeiro e novíssimo disco do Trio Ponteio





Você conhece música instrumental?
No primeiro disco do Trio Ponteio você não vai encontrar: superprodução, arranjos grandiosos e complexos, improvisos extensos e virtuosísticos, novas inovações harmônicas – e muitos menos um novo letrista do porte de Chico Buarque.

Vale a pena ouvir o disco se você não conhece música instrumental?
Sim. Muito.
Vale a pena ouvir o disco se você sabe tudo de música instrumental?
Sim. Muito.
Estas palavras pretendem convencer os ilustríssimos leitores disto e o mais pleno aliado delas é o próprio disco em questão.

No seu auto-intitulado disco de estréia este trio nos dá, além de uma obra que parece ter sido toda pensada para ser belíssima e mais nada, infinitos motivos para pensarmos e discutirmos a música mais contemporânea. A própria lista de ingredientes não presentes no álbum já deveria depor enormemente em favor disso. Até os menos atentos poderiam a usar para promover o disco, ironizando-o, se a espontaneidade da beleza e do afeto destas dez “quase-canções” não fosse tão enorme e cativante.

Por duas razões podemos indicar este disco tanto para qualquer iniciante em música instrumental quanto para um ouvinte familiar ao gênero: por essa sua sedutora simplicidade e, através do grau de consciência e liberdade artística que se expressa nela, por podermos colocar a bolacha do Trio Ponteio de igual para igual com qualquer obra que realize, e bem, a virtuose e a inovação.

Convivendo com alguns amigos músicos muitos deles extremamente jovens, percebo a enorme dedicação que o domínio técnico de um instrumento exige, bem como a igualmente imensa sede de pôr em prática as conquistas que os estudos propiciam. Neste sentido o que fariam dois plenos virtuoses de seus instrumentos, Eduardo Pimentel no violão e Cristian Faig na flauta (talentosíssimos e maduros), unirem-se a um sanfoneiro cheio de belíssimas e singelas composições?

Pois que seis das dez faixas do disco são de autoria ou co-autoria de Marcos Gaitero (gaita ponto) e parecem dar tom ao disco. As outras quatro (uma de autoria solitária de Eduardo, parceiro de Marcos em duas e outras três “pertencentes” a Cristian) enriquecem o trabalho sem destoar da proposta geral: promover um encontro entre de um lado Renato Borghetti e a música gauchesca, o tango, a música flamenca, Luiz Gonzaga e de outro a sensibilidade, o bom gosto, a melancolia e o silêncio.




Como ouvinte amador de música em geral sempre acreditei que uma das razões que dificultam o alcance da música instrumental está na modesta atenção que seus representantes dedicam à atualidade dos efeitos da produção (em sentido amplo), coisa que envolve desde a escolha de timbres dos instrumentos até critérios conscientes para se pesar a simplicidade e a ousadia da proposta geral de um trabalho.

Não é incomum encontrarmos discos deste gênero gravados há pouco tempo, e nos depararmos com timbres francamente anacrônicos e concepção estética geral quase displicente, fazendo com que ouvidos despreparados enxerguem apenas um ar um tanto cafona na obra de músicos talentosíssimos.

Com certeza não somente pela evidente opção do caminho da simplicidade, mas também pelas inteligentíssimas e sensíveis escolhas dedicadas à concepção geral do disco (talvez também bastante espontâneas) o Trio Ponteio traz um exemplo de completo sucesso no quesito bom-gosto e maturidade estética.

Da primeira à última música a trinca parece prezar conscientemente pela extrema simplicidade e elegância seja na quantidade de elementos de um arranjo, seja nas dinâmicas internas e entre as faixas, seja na presença e interação com os músicos convidados, seja na manifestação dos improvisos. Os contrapontos sutis da flauta de Cristian à melodia principal (geralmente executada por Marcos) e a sensível contenção da pegada flamenca do violão de Dudu apenas confirmam tudo isso.

Os que se interessarem abertamente por música regional serão provavelmente ainda mais facilmente tocados pelo disco. Os que não tiverem este histórico têm aqui um motivo para iniciar um, podendo expandir o próprio gosto com segurança.

Mas os que amam uma polemicazinha também foram contemplados e podem se preparar para a derrota: não bastasse a já insistida singeleza que transparece a cada segundo na obra (dando um ar de pureza às apropriações do trio), nem o incontestável domínio técnico das linguagens musicais que fazem confluir os três instrumentistas, a espontaneidade e a evidência do cuidado e da afetividade com que o Trio Ponteio se apropria e re-executa os sons regionais não deixam margem para reclames de tradicionalistas ortodoxos em geral.

“Afinal”, nos perguntaria um chato, não contente, “que sentido faz querer reviver regionalismos tão preciosos e inigualáveis em suas manifestações mais cruas fora do contexto?”

Responderíamos apontando para a enorme diversidade desprendida que encontramos em qualquer lugar em nosso tempo, não só restritas às manifestações artísticas? Acusaríamos o fato de que o novo só pode surgir de uma radical e livre apropriação do passado? Citaríamos Murilo Mendes (“Só não é moderno quem não é antigo.”) ?

Afinal, disco vai e disco vem, manuais de estética passam ao largo com seduções vagas, atores pós-modernos fazem questão de salivar diante do feio e continuo achando que aquilo que verdadeiramente decide o valor da vida e, por meio dela, da arte, é a beleza e sua gratuidade, sua falta de justificativas.

Então eu ficaria contente se pudesse apenas aumentar o som e constatar que o ouvinte companheiro também percebeu que este disco em sua inteireza mostra com quanta simplicidade se comete uma ousadia.


Diogo Araujo da Silva 19/04/10


Ouça o disco do Trio Ponteio aqui no myspace e, se gostar, compre o disco físico, pois este traz uma qualidade bastante maior e está bastante caprichado.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O duo A corda em si e seu Som do vazio




Apesar de não ser músico nem nunca ter observado de perto o trabalho de intérpretes, posso intuir os dilemas que marcam a tarefa de selecionar um repertório para um show ou disco. Há evidentemente idéias prévias que podem facilitar esta difícil – talvez a mais essencial – etapa da construção de um projeto.

Uma delas é muito bem conhecida pelos consumidores de música dos dias de hoje: chovem álbuns de homenagem a compositores, intérpretes e discos consagrados, onde a escolha das canções gira em torno de um conceito pra quem vê de fora bastante determinado e de fácil reconhecimento. A cantora Olívia Byington, por exemplo, fez duas belíssimas homenagens, uma a Aracy de Almeida e outra a Elizeth Cardoso, em seus discos A dama do encantado e Canção do amor demais.

Outro caminho vem da escolha de montar um repertório de acordo com uma proposta um pouco mais aberta, voltada para um gênero ou campo de pesquisa, como no exemplo do novo disco do grupo Quatro a Zero intitulado Memórias do choro paulista: a seleção de músicas foi feita a partir de uma pesquisa de grandes chorões paulistas, muitos deles desconhecidos até dos praticantes do gênero.

Ambas as posturas determinam de antemão a direção do repertório, mesmo que no fundo pareçam ser apenas uma positiva desculpa para que a música simplesmente aconteça.

O caso do duo A corda em si é igual só que diferente: fazendo uma simples reunião de canções, o “conceito” ou unidade do trabalho não é dado de antemão pelo repertório ou por qualquer outro aspecto do seu primeiro trabalho, O som do vazio. Muito pelo contrário: a medida que vamos nos aproximando, a unidade de sua proposta, tão comumente explicitada logo de saída, parece vir de uma quase provocação aos ouvintes.

Eis o ponto: mesmo que predominem canções bastante conhecidas em sua seleção, mesmo que haja uma clara preocupação pela singeleza como resultado final, o duo surpreende e desafia em praticamente todas as nuances de seu projeto.


Não que o caminho para a intimidade com estes músicos seja longo. Para quem se dispõe a ir a um ou dois dos seus shows logo se torna fácil constatar: recusando muitos lugares-comuns, cedo percebemos que há maturidade e ousadia, enormes e exemplares, percorrendo, sutilmente, toda a proposta de Mateus Costa e Fernanda Rosa.

De início nos deparamos com isto: o primeiro trabalho de um duo de baixo acústico e voz, com arranjos lapidados, de excelente nível técnico, baseado num repertório simples, de uma simples coleção de canções populares brasileiras.

Entretanto, convivendo com estes dois músicos enquanto platéia, vamos percebendo o enorme carinho e dispêndio de energia com que foi pensado todo o projeto: não por acaso o seu título é este, O som do vazio. É ele que funciona como um convite inocente a nos aproximarmos mais e mais deste trabalho, ajustando o nosso silêncio de público ao silêncio destes apenas dois músicos que, com malícia, nunca escancaram os seus segredos.

De perto vamos vendo que todas aquelas grandes virtudes que havíamos enxergado num primeiro contato é apenas o começo da história. A aparência de total delicadeza e meiguice do casal Mateus e Fernanda também é ilusória. Depois da simplicidade e do “vazio”, tudo o que há pra se enxergar é ousadia consciente, pulso firme, imensidão e mesmo agressividade em todas as doze versões de canções do projeto.

A primeira vez que os vi senti isto com evidência em uma música: a canção Béradêro de Chico César. Antes disso não conhecia esta canção já por si simples e grandiosa. Nela o A corda em si quase explicita tudo o que sabe deixar velado: no canto de garganta de Fê Rosa e no acompanhamento de imagens suspensivas e cortantes de Mateus, o ouvinte, que ingenuamente havia se deliciado com Chovendo na roseira, é incentivado a se refamiliarizar com suas próprias expectativas.

Não, o show do A corda em si não se torna de uma hora pra outra um espetáculo carregado, de emoções sustenidas: sem que soubéssemos, desde o começo tanto catarse quanto doçura se equilibravam, como que nas sombras do som. Apenas agora temos isto talvez mais explicitado.

A escolha da ordem das músicas no programa do show parece ressaltar esta procura. Um exemplo: depois de Jóia de Caetano Veloso (uma espécie de mantra sobre um poema, em versão bastante bem abordada pelo arranjo francamente agressivo) segue-se a quase melodramática Valsinha de Chico e Vinícius.


Há, no mesmo programa, também uma justificação técnica para o nome do trabalho, O som do vazio: desafiando ainda mais os imagináveis riscos da formação baixo e voz, o A corda em si
revela não fazer questão do preenchimento nos arranjos. Não é preciso ser músico para adivinhar que tal concepção pode ser vista como uma heresia diante do comportamento comum dos arranjadores.

Entre tanta informação, esse texto volta a ressaltar: este papo de não-preenchimento, de simplicidade, de sorrisos pra cá e pra lá, de baixo acústico e voz feminina, de Kid Cavaquinho e lá vai São Francisco é tudo parte de uma grande cilada em que teimam em cair os distraídos.

Este texto é um alerta, uma acusação, talvez a revelação de um segredo ou mesmo um estraga prazeres: não nos deixemos enganar por este simpático casal de músicos – em breve disseminando suas armadilhas através do primeiro cd. Não contentes em serem plenos artistas em pleno debut, ambos parecem mesmo fazer questão de nos ferir com tanta intensidade tirada do aparentemente tão pouco, da cifra mínima da música, do som de todo vazio.



um pouco do som do A corda em si aqui